Misoginia, patriarcado e a sociedade sob a ótica do capital

A análise da misoginia e do patriarcado na atualidade exige um distanciamento das explicações meramente biológicas ou morais, situando-as como componentes fundamentais e funcionais da engrenagem capitalista. A estrutura de opressão que recai sobre as mulheres não é um erro de percurso, mas sim uma característica projetada durante a acumulação primitiva de capital para garantir a reprodução barata da força de trabalho e a fragmentação da resistência proletária. Desde os cercamentos de terras comuns na Europa medieval até as redes de exploração sexual da elite global reveladas nos arquivos de Jeffrey Epstein, observa-se uma constante: a coisificação do corpo feminino como território de extração de valor e disciplina social.

No contexto brasileiro, a crise manifesta-se de forma aguda através de decisões judiciais que desafiam o ordenamento constitucional e as garantias de proteção à infância, como o recente, e absurdo, caso de Indianópolis em Minas Gerais, revelando uma resistência institucional profunda em desmontar as hierarquias patriarcais que sustentam a ordem vigente. Enfrentar essa realidade demanda soluções que transcendam o paradigma puramente punitivista, focando na reeducação estrutural das masculinidades e na construção de redes de proteção comunitária que devolvam às mulheres a soberania sobre seus próprios corpos e vidas.

A arqueologia materialista da opressão feminina

A história da humanidade não foi sempre marcada pela exploração sistemática da mulher como podemos observar sob o regime capitalista. No período que a historiografia marxista define como comunismo primitivo, a produção era essencialmente coletiva e a separação de tarefas não implicava relações de poder ou opressão. Friedrich Engels explica que a transição para formas de produção baseadas na propriedade privada alterou drasticamente esse equilíbrio, consolidando o patriarcado para garantir a herança via linhagem paterna.  

Alexandra Kollontai, dirigente bolchevique e importante liderança na luta feminina, aprofundou essa análise ao apontar que a emancipação das mulheres é impossível sob o capitalismo devido à exploração inerente, ao desemprego e à jornada de trabalho extensiva. Para Kollontai, a opressão da mulher trabalhadora tem uma especificidade que a difere da mulher burguesa, pois a primeira está presa a um sistema que exige sua força de trabalho enquanto negligencia sua função social e reprodutiva.

Clara Zetkin, fundadora do movimento de mulheres socialistas, também defendeu que a luta feminina não deve ser um apêndice, mas uma dimensão constitutiva da transformação revolucionária. Foi Zetkin quem propôs a criação do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora em 1910, visando unificar a luta mundial contra o capital, em especial contra as trabalhadoras.

A disciplina do corpo como tecnologia de poder

A transição do feudalismo para o capitalismo exigiu o que Silvia Federici descreve como a mecanização do corpo humano. Para transformar o indivíduo em uma máquina de trabalho confiável, o Estado e a Igreja lançaram um ataque sistemático contra as formas tradicionais de vida e conhecimento popular. A “Grande Caça às Bruxas” dos séculos XVI e XVII foi o ponto culminante dessa estratégia. Não se tratou de um surto de histeria religiosa, mas de uma iniciativa política deliberada para destruir o controle das mulheres sobre a procriação e o saber medicinal.

As “bruxas” foram perseguidas por serem a resistência ao novo regime de trabalho. Eram as parteiras, curandeiras, esposas desobedientes e mulheres que ousavam viver sós ou em comunidades fora do controle patriarcal. Ao criminalizar o aborto e o uso de contraceptivos — classificando-os como crimes contra o Estado e a Igreja — o capitalismo nascente expropriou os úteros femininos para garantir uma oferta constante de mão de obra. O corpo da mulher tornou-se, assim, o que a fábrica é para o trabalhador assalariado: o principal terreno de disciplina e extração.

O Patriarcado do Salário e a fragmentação da classe

Federici denomina “patriarcado do salário” o arranjo onde o capital excluiu as mulheres do trabalho remunerado, tornando-as dependentes dos maridos. Esse sistema atomizou as comunidades e destruiu as redes de solidariedade. Clara Zetkin já denunciava como os antigos direitos do marido sobre a esposa sobreviviam mesmo no proletariado, agindo como pequenos vermes que corroem o espírito de luta da classe. Para Zetkin, o marido que exige descanso total enquanto a esposa se sacrifica em mil tarefas domésticas insignificantes está reproduzindo a dominação que o capital exerce sobre ele.

A depravação estrutural e os arquivos de Jeffrey Epstein

A atualidade trouxe à tona, de forma crua, como essas hierarquias de poder continuam a operar nos estratos mais elevados da sociedade. As revelações contidas nos arquivos de Jeffrey Epstein funcionam como um raio-x da depravação sistêmica inerente ao, já muito decrépito, capitalismo. A existência de uma rede global de tráfico sexual, abuso de menores e chantagem envolvendo bilionários, políticos e intelectuais não é uma anomalia, mas o reflexo de um sistema que trata corpos humanos como mercadorias de luxo para o usufruto de quem detém o acesso ao capital.

A análise materialista desses eventos indica que Jeffrey Epstein não agia como um predador isolado, mas como um facilitador dentro de uma arquitetura de proteção mútua entre as elites. Redes construídas sobre prestígio e segredo são propensas ao colapso da responsabilidade ética, onde o crime não é confrontado, mas “gerenciado” para evitar danos à reputação institucional. A cumplicidade sistêmica permitiu que esses crimes ocorressem por décadas, mesmo após condenações prévias, demonstrando que as instituições capitalistas estão desenhadas para proteger os agressores poderosos enquanto desumanizam as vítimas trabalhadoras e pobres.

O impacto das revelações dos arquivos Epstein sugere que o capitalismo contemporâneo opera em um estado de “guerra generalizada” contra os sistemas reprodutivos e a dignidade humana, especialmente de mulheres e crianças em situações de vulnerabilidade. A classificação desses atos pela ONU como potenciais crimes contra a humanidade reforça a gravidade da exploração sistêmica que ocorre quando a vida é totalmente subordinada à lógica do lucro e do poder.

A erosão da proteção à infância no Brasil

Em território nacional, a persistência da misoginia e do patriarcado manifesta-se de forma gritante no funcionamento do Poder Judiciário. A recente absolvição, pela 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), de um homem de 35 anos que mantinha relações sexuais com uma criança de 12 anos em Indianópolis, representa um retrocesso civilizatório sem precedentes. A decisão, que justificou o ato alegando um “vínculo afetivo consensual” e a anuência dos pais, ignora frontalmente o Código Penal Brasileiro e a Súmula 593 do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Essa interpretação judiciária reflete uma resistência histórica em aplicar a legislação federal de proteção integral à criança e ao adolescente e às mulheres. Ao relativizar a vulnerabilidade de uma menina de 12 anos, o tribunal valida a lógica de que o corpo da criança pode ser objeto de negociação familiar e satisfação masculina, assemelhando-se às práticas coloniais de servidão e desumanização. Juristas apontam que tal decisão é inconstitucional, pois a vulnerabilidade de menores de 14 anos é absoluta e não admite interpretações subjetivas sobre “consentimento” ou “amor”, as quais servem apenas para camuflar o crime de estupro.

A falha do sistema e a proteção de castas

A absolvição em Indianópolis não é um caso isolado, mas parte de uma jurisprudência subterrânea que insiste em não punir agressores. Essa mentalidade judicial prioriza a manutenção de um núcleo familiar disfuncional e abusivo em detrimento da segurança física e psicológica da criança, tratando o estupro como um problema doméstico menor. Tal postura reforça a tese de que o sistema de justiça opera com dois pesos e duas medidas, protegendo certas estruturas patriarcais tradicionais enquanto criminaliza severamente as populações marginalizadas por crimes contra a propriedade.

A reação de ministérios e órgãos de direitos humanos demonstra o abismo entre o texto legal e a prática de certos magistrados, que parecem imersos em uma cultura de coronelismo que ainda enxerga meninas como propriedades de homens adultos. A luta pela reversão dessa decisão no STJ e no STF é fundamental para reafirmar o padrão de civilidade que proíbe a exploração sexual infantil em qualquer circunstância.

Desconstruir o agressor é insuficiente

Ao tratar das práticas de reeducação e desconstrução do agressor, é necessário compreender que iniciativas como os Grupos Reflexivos para homens autores de violência contra mulheres são ferramentas táticas fundamentais, mas insuficientes se o objetivo for a erradicação definitiva da violência de gênero. No capitalismo, a reeducação masculina atua como um paliativo pontual. A verdadeira solução não reside apenas na conscientização individual, mas na destruição do sistema produtivo capitalista e no fim da exploração do homem pelo homem, pois a opressão feminina é funcional à manutenção da propriedade privada e da acumulação de lucro.  

A insuficiência do reformismo e a necessidade da Revolução

A história nos mostra que as relações humanas derivam das relações de produção. Enquanto vivermos sob a égide da mercadoria, onde até o corpo e o afeto são passíveis de troca, dominação e lucro, a misoginia persistirá como uma ferramenta de controle social e barateamento da mão de obra. A verdadeira emancipação da mulher só será possível com a vitória da revolução socialista, onde a destruição do capitalismo e do imperialismo permita que a vida social deixe de ser orientada pelo valor de troca e passe a ser regida pela satisfação das necessidades humanas universais.

A reeducação dos homens, portanto, deve ser encarada como parte de uma luta política de massas. O homem trabalhador precisa compreender que o privilégio patriarcal que o capitalismo lhe confere sobre a mulher é, na verdade, uma armadilha que fragmenta a classe trabalhadora e o aliena de sua própria humanidade. A luta das mulheres pelo fim da opressão é, dialeticamente, a luta pela libertação de todos os explorados.

Redes de proteção comunitária e poder popular

A proteção efetiva da mulher não pode depender apenas de mecanismos estatais que, como visto no caso Epstein e no TJMG, são frequentemente permeáveis ao interesse patriarcal. Historicamente, a autonomia feminina esteve ligada ao controle coletivo sobre os meios de produção e à existência de redes de ajuda mútua. No Brasil, movimentos sociais como o Movimento de Mulheres Olga Benário têm liderado a criação de alternativas concretas de abrigamento e suporte.

Casas de Referência: A gestão autônoma do cuidado

Através da ocupação de imóveis abandonados que não cumprem função social, o Movimento Olga Benário estabelece Casas de Referência que funcionam como redes autônomas de resistência. Diferente das Casas-Abrigo estatais, que muitas vezes operam sob lógicas de isolamento e vigilância excessiva, essas casas são geridas pelas próprias mulheres e oferecem atendimento humanizado, advocacia popular e suporte psicológico voluntário. Locais como a Casa Tina Martins (Belo Horizonte, MG), Casa Almerinda Gama (Rio de Janeiro, RJ), Ocupação De Mulheres Rayana Alves (Bélem, PA) e Casa Helenira Preta (Mauá, SP) representam a prática do Poder Popular. Ao dirigir seus próprios centros de referência, as mulheres não apenas fogem da violência doméstica, mas se formam para enfrentar a violência do sistema capitalista que as quer isoladas e submissas. A organização das mulheres da classe trabalhadora é a única garantia de que a luta contra o machismo não será cooptada por discursos liberais que ignoram as raízes econômicas da opressão.

Conclusões: O caminho para a emancipação total

Nossa tarefa é utilizar as ferramentas da crítica materialista para denunciar as práticas desumanas de misoginia e do patriarcado que até hoje moldam a sociedade. A mudança dessa sociedade exige de nós que sejamos capaz de reconhecer que essas tecnologias do capitalismo são parte do nosso subconsciente e, muitas vezes, consciente e se expressam no nosso modo de ser e agir. E por consequência disso nossas instituições e ordenamento também estão impregnados dessas mesmas ideias.

A superação da misoginia e do patriarcado no capitalismo não pode ser alcançada dentro dos marcos da própria sociedade que lucra com essa opressão. A análise histórica revela que a degradação da mulher foi uma condição necessária para a transição capitalista e continua sendo um pilar para a acumulação global de riqueza.  

O caminho para a emancipação plena exige:

  1. A organização independente da classe trabalhadora para a derrubada do Estado burguês.
  2. A socialização do trabalho doméstico e do cuidado, transformando o que hoje é um fardo individual das mulheres em uma responsabilidade coletiva planejada.
  3. A construção do socialismo, eliminando a propriedade privada dos meios de produção para que a exploração deixe de ser o motor da história.

Somente quando a reprodução da vida deixar de ser um custo a ser minimizado e passar a ser o centro de toda a política social, poderemos dizer que a humanidade finalmente é verdadeiramente livre e digna.