A Farsa da Inteligência Artificial: Mecanização da inteligência humana

O bombardeio de propaganda que a burguesia despeja diariamente sobre as nossas cabeças pinta a Inteligência Artificial (IA) como uma força mágica, neutra e inevitável. Os ideólogos do capital nos prometem um futuro sem esforço, onde as máquinas libertarão a humanidade do fardo do trabalho. Trata-se da mais velha mentira deslavada. Sob o capitalismo, o avanço tecnológico nunca visou à emancipação da classe trabalhadora, mas sim ao aumento brutal da taxa de exploração, à concentração de riqueza e à destruição de direitos históricos.

A “tecnologia”, não está nas nuvens, possui uma base material muito concreta. A IA nada mais é do que um novo e poderosíssimo meio de produção, concentrado de forma quase absoluta nas mãos de uma parcela ínfima da burguesia. Empresas como Microsoft, Google, Nvidia e Amazon — as Big Techs — detêm o monopólio material dessas tecnologias, e utilizam elas como correias de transmissão da sua ideologia e como ferramentas para sugar até a última gota de suor do trabalhador.

A Mecanização do Trabalho Intelectual

O que estamos assistindo hoje em diversos setores de trabalho intelectual é um processo idêntico ao que Karl Marx descreveu em O Capital: a transição da subsunção formal para a subsunção real do trabalho ao capital. Durante décadas, o desenvolvedor de software, por exemplo, operou como uma espécie de “artesão digital”. Embora assalariado, ele detinha um saber técnico especializado e uma autonomia relativa sobre a escrita do código, o que lhe garantia certo poder de barganha frente ao patrão.

Com as IAs generativas controladas pelas Big Techs, o capital opera a sua “Revolução Industrial” sobre o trabalho cognitivo. Essas ferramentas funcionam como a máquina que incorpora em si o conhecimento histórico acumulado da classe trabalhadora e o volta contra o trabalhador. Tarefas muito básicas — escrita de código básico, documentação e testes — são automatizadas. O programador é despido de sua autonomia criativa e rebaixado a um mero supervisor da máquina, obrigado a operar no ritmo frenético da linha de montagem ditado pelos algoritmos de plataformas transnacionais.

Assim como as máquinas de tecer do século XVIII não libertaram os tecelões ingleses, mas os lançaram na miséria das fábricas, a IA na era das empresas serve apenas para intensificar a jornada de trabalho.

O Paradoxo da Produtividade

A promessa que a burguesia faz é de que a automação traria mais tempo livre, porém essa mentira desmorona diante da realidade. Pesquisas da empresa Workday revelam um cenário de esgotamento generalizado: enquanto 96% dos executivos esperam que a IA aumente a produtividade, 77% dos trabalhadores relatam que a tecnologia, na verdade, aumentou a sua carga de trabalho e gerou mais estresse.

Esse aumento de carga decorre da pressão insana por metas inatingíveis e do fenômeno que os próprios pesquisadores burgueses chamam de Taxa da IA. A cada 10 horas supostamente “economizadas” pela automação, 4 horas são perdidas pelos trabalhadores para corrigir erros, mentiras e “alucinações” geradas pelos algoritmos das Big Techs.

Além disso, a adoção dessas ferramentas por um setor força uma aceleração intersetorial. Quando a área de vendas passa a usar IA para gerar demandas em massa, as áreas administrativa, de suporte e de atendimento ao cliente são soterradas por um volume insuportável de trabalho, gerando crises profundas de burnout e adoecimento ocupacional.

O Ataque Brutal Contra a Juventude Trabalhadora

O alvo imediato dessa nova investida do capital é a juventude. Um estudo publicado pela FGV Ibre em abril de 2026, indica que a expansão da IA generativa já está reduzindo as oportunidades de emprego e a renda dos jovens de 18 a 29 anos no Brasil.

O capital está destruindo as vagas de entrada. As tarefas que antes serviam para inserir o jovem no mercado de trabalho e iniciar sua formação profissional — como a montagem de tabelas, gráficos, resumos e análises básicas — estão sendo sumariamente substituídas pela IA generativa. O estudo aponta que esse processo atinge em cheio cerca de 30 milhões de trabalhadores no país, fechando as portas do futuro para uma geração inteira e empurrando-a para o desespero do subemprego e da informalidade.

O Algoritmo como o Chicote da Casa-Grande

A desumanização das relações de trabalho começa antes mesmo da contratação. Hoje, mais de 72% das empresas no Brasil já utilizam sistemas de IA em seus processos de recrutamento e seleção, é o que indica a última pesquisa de tendências da Catho, plataforma especializada em recrutamentos. Sob a máscara da “neutralidade científica”, essas ferramentas atuam como verdadeiros filtros de segregação social e racial.

Estudos da USP, UFSC e UNIFAL têm alertado sobre o racismo algorítmico. Esses sistemas da burguesia são treinados com base em dados históricos de uma sociedade estruturalmente racista, patriarcal e desigual. O resultado é óbvio: a máquina “aprende” os preconceitos da classe dominante e passa a excluir de forma automática e invisível os currículos de pessoas negras, mulheres, LGBTIA+ e moradores de bairros periféricos.

Devastação Ambiental e Submissão Geopolítica

Ao contrário do mito da tecnologia limpa e “virtual”, a infraestrutura das Big Techs é uma das maiores ameaças ecológicas do nosso tempo. A IA exige data centers gigantescos que consomem energia e água em escala industrial para resfriar seus servidores. O projeto do data center do TikTok instalado no Ceará, por exemplo, consome energia equivalente à de 2,2 milhões de brasileiros, e opera em bacias importantes que já sofrem com o estresse hídrico.

Além disso, a produção de peças e equipamentos exige a extração predatória de minerais estratégicos e terras raras. No Brasil, a ganância por esses componentes alimenta o garimpo ilegal e a invasão de terras indígenas na Amazônia.

O Socialismo é a Nossa Saída

Ao contrário do que a ideologia burguesa tenta nos impor, a classe trabalhadora não deve olhar para a Inteligência Artificial com medo ou resignação. A máquina não é nossa inimiga. O inimigo real é a propriedade privada dos meios de produção, que transforma instrumentos de potencial emancipatório em armas de tortura econômica, desemprego e devastação ecológica. 

Em uma sociedade socialista, a Inteligência Artificial seria um poderoso instrumento de planejamento econômico e emancipação humana, transformando radicalmente os serviços públicos essenciais para a classe trabalhadora brasileira. O Brasil possui o maior banco de dados de saúde pública do mundo. Sob controle popular e em parceria com a Fiocruz e laboratórios públicos, a IA pode ser aplicada para realizar diagnósticos de condições críticas (como AVC e câncer), além de prever e organizar a distribuição de medicamentos. A IA poderia também fazer o planejamento agrícola centralizado de todo o país, coordenando a logística de alimentos para erradicar a fome e os desperdícios causados pela anarquia do livre mercado.

A verdadeira soberania do nosso país e a libertação do nosso povo não virão das concessões do Estado burguês e das oligarquias da tecnologia. A única saída é a luta popular organizada pela derrubada do capitalismo e pela socialização dos meios de produção. É fundamental que os trabalhadores e trabalhadoras não aceitem a miséria do desemprego algorítmico. É hora de organizar comitês nos locais de trabalho e estudo, de fortalecer as fileiras dos movimentos sociais e de combater o entreguismo tecnológico. A tecnologia foi criada pelo trabalho coletivo da nossa classe; ela deve pertencer a quem trabalha!

Fontes:

Duque, Daniel. “Inteligência artificial generativa e mercado de trabalho no Brasil: evidências iniciais sobre ocupação e renda.” FGV Ibre, 27 04 2026, https://blogdoibre.fgv.br/sites/blogdoibre.fgv.br/files/u139/inteligencia_artificial_generativa_e_mercado_de_trabalho_no_brasil_0.pdf. Acesso em 09 05 2026.

Pessanha, Gabriel Rodrigo Gomes. “Viés e Discriminação em Processos de Recrutamento Automatizados: Uma Revisão Sistemática da Literatura sobre o Uso de Inteligência Artificial.” SEMEAD, 2025, https://login.semead.com.br/28semead/anais/resumo.php?cod_trabalho=1650. Acesso em 02 05 2026.

PressWorks. “Digital se consolida e já está presente em 72% dos processos seletivos no Brasil.” Valor Econômico, 13 03 2026, https://valor.globo.com/patrocinado/pressworks/noticia/2026/03/13/digital-se-consolida-e-ja-esta-presente-em-72-dos-processos-seletivos-no-brasil-1.ghtml. Acesso em 19 05 2026.

Santos, Rodrigo Coimbra, e Graminho, Vivian Maria Caxambu. “Discriminação algorítmica nas relações de trabalho e princípios da Lei Geral De Proteção De Dados.” Periódicos UFSC, 26 09 2024, https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/96294. Acesso em 08 05 2026.

Silva, Humberta Karinne da Conceição Santos. “Artificial intelligence in the hiring process: uses and consequences.” Jornal da USP, 03 10 2025, https://teses.usp.br/teses/disponiveis/12/12139/tde-03102025-113052/pt-br.html. Acesso em 03 05 2026.

Workday. “Beyond Productivity: Measuring the Real Value of AI.” Workday, 2026, https://mb.cision.com/Public/23916/4309334/9fe00b14fe0000f0.pdf. Acesso em 05 05 2026.